terça-feira, 20 de setembro de 2016

Então quer dizer que quando o imposto sobe, quem ganha são os criminosos?



Exatamente. Quando o imposto aumenta, o cigarro produzido no Brasil fica mais caro para o consumidor final. Com o cigarro nacional mais caro, o crime organizado leva vantagem na comercialização e distribuição do cigarro contrabandeado. Quanto mais o imposto cresce, mais o crime organizado se beneficia.
 http://www.fncp.org.br/impostocrescecrimeagradece/

O aumento do imposto do cigarro contribui para o aumento do contrabando?



Desde 2011, ano em que entrou em vigor o atual modelo tributário do setor, e que previa aumentos sucessivos de impostos, até 2015, o volume do mercado legal de cigarros no país teve uma redução de 8% ao ano. Já o volume do mercado ilegal cresceu 9% ao ano no mesmo período.
 http://www.fncp.org.br/impostocrescecrimeagradece/

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

A gênese do jihadismo

Esforço de elevação espiritual, jihad pode também significar o combate aos infiéis e aos hipócritas. Aqueles que o usam hoje para justificar uma conduta ultraviolenta nutrem um sonho de conquista inspirado por uma ideologia rígida advinda de uma dupla filiação: a Irmandade Muçulmana e o salafismo wahabita, amplamente d
 Nabil Mouline





Fenômeno complexo e multidimensional, o jihadismo é, antes de tudo, uma ideologia global. Resultado de uma bricolagem intelectual que resulta da deturpação de conceitos, símbolos e imagens de origem muçulmana e europeia, seus depositários pretendem oferecer aos “fiéis” um novo começo, uma nova identidade e um novo modo de vida para vencer aqui embaixo e no além. Em suma, é uma representação de mundo que dá a certeza de pertencer a algo maior que si mesmo: o grupo de eleitos encarregado por Deus de restabelecer a verdadeira religião e de reunificar a oumma (a comunidade dos fiéis) sob a égide do califado – a monarquia universal islâmica –, antes de se lançar à conquista do mundo e obter a salvação. Retraçar a gênese e o desenvolvimento dos principais afluentes da ideologia jihadista ajuda a compreender melhor seu poder de atração e sua eficácia, de Saint-Denis (França) a Karachi (Paquistão).

A exemplo de outras ideologias extremistas, o jihadismo finca suas raízes no desencantamento provocado pela Primeira Guerra Mundial. O desmantelamento do Império Otomano, a abolição do califado por Mustapha Kemal Ataturk, a dominação ocidental e a poderosa ascensão de novas formas de socialização criaram uma verdadeira desordem em alguns centros muçulmanos. Para sair de tal crise existencial, alguns militantes, letrados e ulemás (juristas e teólogos) viram no islã o único remédio. Diversos projetosmais ou menos bem-sucedidos apareceram também entre as duas guerras. O maisimportante entre eles é, sem dúvida, a Irmandade Muçulmana.

Inspirada na Associação Cristã de Moços, a confraria Irmandade Muçulmana surgiu no Egito por volta de 1928. Para seu fundador, Hassan al-Banna, o islã é uma ordem superior e total que deve reinar absoluta no espaço social muçulmano, pois é ao mesmo tempo “dogma e culto, pátria e nacionalidade, religião e Estado, espiritualidade e ação, Alcorão e espada”. Para atingir tal objetivo, projeta uma estratégia teológica: é preciso em primeiro lugar islamizar a sociedade pela base, passando por cima de todas as escolas jurídicas e teológicas, antes de tomar o poder e criar Estados islâmicos. Tais Estados, que garantem a supremacia da xaria (lei islâmica), se envolveriam aos poucos em um processo de integração por meio de programas de cooperação. Esse processo deve levar finalmente à abolição das fronteiras e à proclamação do califado.

O fundador da Irmandade Muçulmana nunca definiu os princípios e as estruturas do Estado islâmico que desejava instaurar. Sempre se contentou com slogans e fórmulas vazias, às vezes até contraditórias. Mas os traços encontrados aqui e ali em alguns de seus escritos, bem como sua ação no comando da confraria, demonstram bem que ele tinha uma queda pelo elitismo, pelo dirigismo e pelo autoritarismo. Al-Banna se declarava de maneira bem clara contra certos princípios democráticos, principalmente a liberdade, a separação entre política e religião, o multipartidarismo e a divisão dos poderes. Para enfrentar os desafios internos e externos, a oumma deve ser, segundo ele, dirigida por uma só lei (a xaria), por um só partido (a Irmandade Muçulmana) e por um só chefe (o califa).

Graças à simplicidade relativa de seu discurso e ao zelo de seus membros, a confraria aumentou consideravelmente sua base de apoio no Egito e em outras partes do mundo árabe. Não conseguiu, todavia, realizar seu principal objetivo: tomar o poder, condição indispensável para restabelecer a cidade de Deus e obter a salvação. Desde o fim dos anos 1940, esse fracasso impulsionou uma minoria decidida a adotar posições cada vezmais radicais, principalmente no tocante ao uso da violência. As coisas se aceleraram de maneira dramática durante a década seguinte, em razão da repressão sem precedentes conduzida pela junta militar recém-instalada no poder no Cairo.

Intelectualmente atormentado, Sayyed Qotb se uniu à confraria durante esse período de crise. Preso pelo presidente Gamal Abdel Nasser, operou uma reviravolta ideológica que teria consequências enormes no campo político-religioso árabe-muçulmano. Ele considerava, na verdade, que o mundo no qual vivia caíra na ignorância e na descrença (al-jahiliyya). Os verdadeiros fiéis, então ultraminoritários, deveriam realizar um êxodo (al-hijra), separando-se espiritual e fisicamente das sociedades ímpias. Após terem criado uma plataforma espiritual e temporal sólida, os escolhidos deveriam se lançar à conquista do mundo ímpio no âmbito de um jihad integral. Inspirado no indo-paquistanês Abul Ala Mawdudi, partidário fervoroso da ideia do califado, Qotb incitou os escolhidos a restabelecer a soberania absoluta de Deus (al-hakimiyya) mediante a instauração do Estado e da lei islâmicos para libertar os fiéis do materialismo ocidental. Essa cultura de enclave, que não é nova na história muçulmana, tornou-se muito rapidamente o pilar político do jihadismo contemporâneo.


Apesar de sua popularidade e de sua adoção por certo número de grupos radicais a partir da década de 1960, as ideias de Al-Banna e de Qotb foram freadas em sua difusão por um obstáculo estrutural: seus autores não eram ulemás depositários de uma tradição secular, mas reles intelectuais e militantes islamitas, uma categoria que ainda não encontrou lugar no campo político-religioso. Ao longo dos anos 1960 e 1970, diversos grupos jihadistas (Shabab Muhammad, Al-Jihad e Al-Takfir wal-Hijra) se esforçaram para remediar esse problema utilizando insistentemente referências clássicas, em especial os escritos de Ibn Taymiyya, jurista-teólogo do século XIII, e de seu discípulo Ibn Qayyim al-Jawziyya. Em vão.

Em 1979, a invasão soviética do Afeganistão possibilitou ao jihadismo dotar-se de uma doutrina teológica e jurídica bem estabelecida: o wahabismo. Graças aos petrodólares da Arábia Saudita, a tradição pôde se impor no campo islâmico como uma nova ortodoxia. Nascido durante a segunda metade do século XVIII na Arábia Central, o wahabismo é uma derivação do hanbalismo, uma das quatro grandes escolas jurídicas do sunismo. Pregador intransigente, seu fundador, Mohammed ibn Abdelwahhab (1703-1792), não recuava diante de nada para impor o que considerava a única verdadeira religião, aquela do Profeta e dos piedosos ancestrais, al-salaf al-salih, de onde surgiu o termo “salafismo”, outra denominação dessa tradição. Em 1744, ele aliou-se aos Saud para erguer, com base em sua doutrina, uma entidade política: o primeiro Estado saudita, instalado em 1818.

Seguido cegamente por seus discípulos, Ibn Abdelwahhab garantia que a única via possível para a salvação era a restauração da religião “pura”. Para tanto, seria necessário (re)descobrir o conceito fundamental do islã: a unicidade divina – al-tawhid, origem do nome de muitos movimentos jihadistas. Essa unicidade só pode ser realizada com uma condição: a observação estrita da ortodoxia e da ortopraxia, conforme a doutrina hanbalita. Todos aqueles que não aderem a esse dogma são classificados como hipócritas, desgarrados, hereges ou infiéis. Muitas doutrinas e práticas do sufismo, tais como o culto dos santos, as peregrinações extracanônicas e as práticas divinatórias, são associadas a formas de idolatria que devem ser combatidas por todos os meios. Do mesmo modo, indivíduos e governos que recorrem a leis consideradas não islâmicas, principalmente as leis positivas, são declarados apóstatas.

Tornar-se e permanecer um verdadeiro monoteísta supõe aplicar estritamente as percepções divinas a todos os âmbitos da vida. Para atingir tal objetivo, os wahabitas preconizam uma interpretação rigorosa dos textos sagrados. A xaria e, principalmente, os castigos corporais devem, segundo eles, ser aplicados à risca.

Para traçar verdadeiras fronteiras, simbólicas e reais, entre a religião autêntica e as falsas, os defensores do wahabismo desenvolveram o princípio al-wala wal-bara (a fidelidade e a ruptura). O fiel deve fidelidade e lealdade absolutas a todos os outros membros da comunidade. Por outro lado, as relações com os infiéis se limitam teoricamente à conversão, à submissão ou à guerra. Por essa lógica, os muçulmanos que habitam territórios ímpios devem, cedo ou tarde, realizar uma hégira, um êxodo, em direção à casado islã para se abastecer de forças sagradas antes de partir novamente para o jihad.


Armados do projeto de Al-Banna, do mapa de Qotb, da ortodoxia wahabita e da vitória contra os soviéticos, os jihadistas creem deter enfim a fórmula ideológica ideal para revitalizar o califado e a era de ouro do islã. Conforme atestam bem as profecias de fé que circulam na internet, principalmente aquela publicada pelo chefe da Organização do Estado Islâmico (OEI) do Iraque, Abou Omar al-Baghdadi, em 2007, essa ideologia evoluiu muito pouco durante as últimas décadas. As únicas novidades a destacar são a subida ao poder do discurso antixiita – em razão dos contextos saudita, iraquiano e sírio –, o desenvolvimento de escritos que legitimam todas as formas de violência e os relatos messiânicos.

Para conseguir fazer triunfar essa que creem ser a verdadeira religião, os jihadistas elaboram desde o começo dos anos 1990 diversas estratégias ao mesmo tempo concorrentes e complementares. A Al-Qaeda baseia sua existência na ideia de que a oumma é alvo de incessantes agressões internas e externas. Os muçulmanos do mundo inteiro têm a obrigação, segundo ela, de prestar socorro a seus correligionários em apuros. Tal solidariedade orgânica se expressa por meio de um jihad global, ora contra as grandes potências, ora contra os regimes árabe-muçulmanos que as apoiam. O objetivo final é expulsar tais potências dos domínios do islã, converter os regimes considerados apóstatas e restabelecer o califado. Considerando-se a vanguarda da comunidade dos fiéis, os membros da Al-Qaeda querem fazer do Afeganistão o lar de uma nova epopeia. Em 1998, Osama bin Laden e seus imediatos também juraram lealdade ao líder dos talibãs, o mulá Omar, como comandante dos fiéis, declarando o jihad às potências ocidentais. Uma série de grandes atentados se seguiu, entre eles o de 11 de setembro de 2001.

Levando em conta as consequências dos fracassos da Al-Qaeda, a OEI adotou uma ação “glocal”, ou seja, desenvolve sua capacidade de pensar globalmente e agir localmente. Os dirigentes da organização, que se consideram por sua vez os novos escolhidos, preferiram de imediato dotar-se de uma plataforma no próprio centro do mundo árabe-muçulmano e garantir sua autonomia financeira antes de enviar seus soldados para atacar o mundo. Para isso, seguiram um plano em três etapas, publicado entre 2002 e 2004: “Sobre a administração da selvageria: a etapa mais crítica pela qual a comunidade de fiéis passará”. Em termos mais simples e diretos, esse opúsculo explica como os jihadistas podem aproveitar os acontecimentos e as circunstâncias, no plano local ou internacional, para dominar um território. Uma vez conquistado, este pode tornar-se uma plataforma não somente mediante o uso de uma violência extrema e de uma propaganda implacável, mas também se inspirando na arte da guerra e no know-how administrativo ocidentais. O sucesso parcial dessa estratégia e a proclamação de um “califado” em junho de 2014 foram replicados no mundo muçulmano e em outras partes do planeta, no Sinai, na Líbia, no Sahel, na Tunísia, na Arábia Saudita e na França... 

Nabil Mouline
*Nabil Mouline é pesquisador no Centre d’études interdisciplinaires des faits religieux (CEIFR) na École des hautes études en sciences sociales (EHESS). É autor, entre outras, da obra Les clercs de l’islam. Autorité religieuse et pouvoir politique en Arabie Saoudite (XVIIIe-XXIe siècle)[Os clérigos do islã. Autoridade religiosa e poder político na Arábia Saudita (séculos XVIII a XXI)], Presses Universitaires de France (PUF),PARIS, 2011

Ilustração: João Montanaro
Le Monde Diplomatique Brasil

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

COMO EVITAR O CAOS CLIMÁTICO?


Da ciência à política


A 21ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP 21), que será realizada em Paris de 30 de novembro a 11 de dezembro, não tem o direito de fracassar. O tempo urge, e o conjunto dos países industrializados precisa se comprometer a reduzir drasticamente suas emissões de gases do efeito estufa.

Philippe Descamps




Durante a noite polar, a temperatura dificilmente ultrapassa os 60 °C negativos nos morros da Antártida. As novidades, além de poucas, não eram boas. O presidente norte-americano Ronald Reagan acabara de divulgar sua iniciativa de defesa estratégica para desafiar uma gerontocracia soviética incapaz de sair da estagnação econômica e do atoleiro afegão. Dentro das frágeis barracas da base de Vostok, cantavam-se músicas de Georges Brassens e Vladimir Vissotsky para manter o moral. Abastecidos por aviões norte-americanos, cientistas franceses e soviéticos enfrentavam os elementos da natureza a fim de descobrir juntos os segredos do clima. Objetivo: remontar no tempo, descendo cada vez mais nas entranhas da geleira de 3.700 metros de espessura que jazia sob seus pés. Em fevereiro de 1985, a equipe conseguiu extrair fragmentos de gelo que conservavam informações cruciais sobre o ar e as temperaturas dos últimos 160 mil anos. Após dois anos de exames, esses fragmentos trouxeram enfim a prova procurada: o globo foi às vezes mais quente que hoje, às vezes mais frio, mas essas variações acompanharam fielmente as da concentração de gás carbônico (CO2). Ora, sabe-se que desde a Revolução Industrial, sobretudo desde meados do século XIX, o teor de CO2 na atmosfera não para de aumentar e atualmente ultrapassa todas as referências históricas. Essas descobertas, corroboradas pela perfuração de sedimentos marinhos e pelo estudo de outros gases do efeito estufa, como o metano, convenceram as Nações Unidas a criar, em 1988, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês). Devotando-se ao estudo da literatura científica, o IPCC tem por missão colocar o mundo a par do estado atual dos conhecimentos. Entre seu primeiro relatório, publicado em 1990, e o quinto, concluído em 2013,1 ele apresenta suas conclusões com um grau de probabilidade cada vez mais elevado: “O aquecimento do sistema climático é incontestável. Inúmeras mudanças observadas desde os anos 1950 não têm precedentes há décadas, talvez milênios”, diz o último relatório. “A atmosfera e os oceanos se aqueceram, a cobertura de neve e gelo diminuiu, o nível dos mares subiu e as concentrações dos gases do efeito estufa aumentaram.” Os especialistas já não têm dúvidas quanto às causas desse fenômeno: “A influência do homem sobre o sistema climático foi claramente estabelecida [...]. Para conter a mudança do clima, será necessário reduzir drástica e duradouramente as emissões de gases do efeito estufa (GEEs)”.

Com base em modelos, o IPCC apresenta um resumo das evoluções recentes e, sobretudo, projeções para as décadas futuras em função de quatro cenários de emissões de gases do efeito estufa. A hipótese mais pessimista (RCP 8,5) – pouco esforço de redução – prediz, até o ano de 2100, temperaturas mais elevadas em cerca de 4 °C na escala global e em cerca de 6 °C nas terras emersas, ou seja, o caos. Nem os cenários médios (RCP 6,0 e RCP 4,5) podem garantir uma estabilização a médio prazo. Só a hipótese otimista (RCP 2,6) permitiria manter a alta da temperatura global abaixo dos 2 °C, um patamar que não pode ser ultrapassado e, de preferência, nunca ser alcançado (ver artigo de Eric Martin na p. 30). Além disso, deve-se contar com aquecimento fora de controle, degelo rápido na Groenlândia, modificação da circulação oceânica profunda e derretimento do permafrost2 nas terras boreais, o que acarretaria a liberação maciça de CO2.

Contudo, a hipótese otimista supõe a contenção imediata das emissões, que devem baixar para zero em duas ou três gerações. Oficialmente, todos os Estados reconhecem esse imperativo desde a Cúpula da Terra, no Rio de Janeiro, em 1992, e da adoção da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Mudanças do Clima. Depois dessa ode mundial à salvaguarda do planeta, entretanto, a situação ficou ainda mais grave. Em 2013, o total de emissões de CO2 ultrapassou 34,3 bilhões de toneladas, contra 23 bilhões em 1990.3 De 1980 a 2011, a “pressão antrópica” (a parte do aquecimento resultante das atividades humanas) dobrou por causa da emergência de novos países industrializados e do aumento da população.

O clima surge como um multiplicador de desequilíbrios, desigualdades e ameaças a que estão sujeitos os mais pobres. Aridez, furacões, monções desreguladas: o Sul já padece dos efeitos das mudanças sem ter conhecido os benefícios do desenvolvimento. Na África, o deserto avança pelo Sahel e 620 milhões de pessoas ainda não têm acesso à eletricidade. Uma responsabilidade colossal cabe aos países desenvolvidos, em particular aos Estados Unidos (ver mapa na p. 24). Desde sua criação, a empresa petrolífera Chevron teria, sozinha, mandado para a atmosfera mais de dez vezes o que todos os países da África subsaariana (fora a África do Sul) emitiram desde 1850; a Gazprom, tanto quanto a África; e a Saudi Aramco, mais que a América do Sul inteira.4

A maior parte do transtorno se deve à utilização do carbono, do petróleo e do gás. Todavia, em 2013, as subvenções públicas aos combustíveis fósseis chegaram a 480 bilhões de euros, isto é, mais de quatro vezes a soma das que foram concedidas às energias renováveis.5

Diante de tal desafio, a lógica da relação de forças entre nações se torna inoperante e o caminho da cooperação continua acidentado. Após o Senado norte-americano se recusar a ratificar o Protocolo de Kyoto, em 1997,6 e depois do fiasco de Copenhague, em 2009, a Conferência de Paris foi minuciosamente preparada apostando em declarações voluntárias: as “contribuições previstas determinadas em nível nacional”. Em meados de outubro, 148 países, representando 87% das emissões, haviam apresentado seus roteiros. Entre os grandes poluidores, faltaram apenas as contribuições do Irã e da Arábia Saudita. Cada qual alardeia grandes ambições: a China pretende alcançar seu pico de emissões e iniciar a redução em 2030; a União Europeia promete eliminar 40% das suas em 2030 (em relação a 1990); e os Estados Unidos anunciam uma queda de 26% em 2025 (em relação a 2005).

No entanto, a embaixadora francesa encarregada das negociações sobre a mudança climática, Laurence Tubiana, reconhece: “Ainda que positivas, essas contribuições não serão suficientes para nos colocar, depois da Conferência de Paris, num rumo compatível com o limite de 2 °C. Por isso, o acordo de Paris deverá conter dispositivos que permitam fomentar regularmente o entusiasmo comum no curso do tempo, para que cada período de contribuições seja mais ambicioso e possamos cumprir nossos objetivos de longo prazo”.7 Para obter um acordo universal, que entraria em vigor a partir de 2020, a estratégia da Presidência francesa se resume em evitar questões incômodas. Há fortes dúvidas quanto ao objetivo global de redução, à definição de um máximo mundial de emissões, aos mecanismos de controle... A taxação dos transportes marítimos e aéreos continua sendo um tabu. E o questionamento de um modo de produção que está levando a humanidade para o abismo ainda vai demorar.

Alguns países, como os Estados Unidos, a Alemanha e os emirados do Golfo, não conseguirão jamais apagar os traços que deixaram na atmosfera; sua “dívida climática” é irremissível. As nações do Sul receberiam deles uma compensação financeira para poder alcançar um desenvolvimento sem carbono, saltando a etapa mortífera das energias fósseis. Mas o objetivo de US$ 100 bilhões por ano, consagrados a esse fim, ainda não encontrou quem o financiasse.

A preparação dessa 21ª conferência se caracteriza pelo papel crescente que lá desempenham as multinacionais com este credo: o direito do comércio terá de prevalecer sempre sobre a ambição social e ambiental. E os dirigentes que, com a mão no peito, virão propor um acordo sobre o clima negociam na sombra a criação do Grande Mercado Transatlântico (GMT), que visa “garantir um ambiente econômico aberto, transparente e previsível na questão da energia, e um acesso ilimitado e sustentável às matérias-primas”.8

O caos climático só será evitado caso a maior parte das reservas de energia fóssil permaneça no solo. O desafio coletivo consiste em tornar esse esforço aceitável para todos, pondo-se fim ao aumento das desigualdades que desencoraja a solidariedade. Não convém esquecer a proclamação de George H. Bush ao chegar à Cúpula da Terra, no Rio: “O modo de vida americano não é negociável”. Um modo de vida impossível de generalizar e cuja perpetuação nos custou vinte anos, tornando decisões futuras ainda mais difíceis de tomar.

O risco será deixar o tempo correr, enquanto se insiste em soluções quiméricas ou marginais, como a geoengenharia, que pretende fixar mais o carbono no solo ou reduzir a radiação solar. Os países do norte da Europa abriram um caminho novo propondo a partir do início dos anos 1990 uma “taxação do carbono”. Conseguiram uma redução significativa dos gases do efeito estufa sem renunciar à prosperidade: liberaram créditos para melhorar a eficácia energética dos transportes e construções, e para pesquisar energias renováveis. Mas estas não atenderão a uma demanda crescente, pois logo começarão a rarear os metais indispensáveis às instalações eólicas ou solares.9 A via do “reduzir, reutilizar, reciclar” leva a repensar o consumo, fundamentando a qualidade de vida em outros critérios que não a acumulação.

Os otimistas têm por si os últimos números da Agência Internacional da Energia: em 2014, a economia mundial progrediu 3%, enquanto as emissões de CO2 permaneceram constantes.10 Efeito conjuntural ou início da dissociação? Acharemos motivos mais sólidos para ter esperança na tomada de consciência dessas apostas, com o despertar de uma miríade de associações, e nas posturas adotadas por algumas autoridades morais, como o papa Francisco.

A multiplicação dos acidentes ecológicos vem forçando a China a questionar seu desenvolvimento; e a candidata à Presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton, também deverá rever sua posição, renunciando ao projeto do oleoduto Keystone XL, concebido para facilitar a importação, pelos norte-americanos, das areias betuminosas de Alberta – um símbolo de desperdício anacrônico. A Convenção sobre a Proteção da Camada de Ozônio se tornou, em 2009, o primeiro tratado da história a ser universalmente ratificado; a salvaguarda do clima requer uma mobilização coletiva não menos ambiciosa.

O PLANETA COM FEBRE

Para entender a importância das medidas recentes e das hipóteses do IPCC (à direita), é preciso olhar com cuidado a escala de tempo, bem diferente do gráfico à esquerda. A evolução das temperaturas e do CO2 nos últimos 800 mil anos na Antártida pôde ser estabelecida graças à extração de gelo realizada por cientistas europeus em 2007.

Philippe Descamps
Jornalista

1 Ao relatório do grupo 1, “Os elementos científicos”, juntaram-se em 2014 os do grupo 2, “Incidências, adaptação e vulnerabilidade”, e do grupo 3, “A atenuação da mudança climática”. Todos os relatórios estão em .

2 Solo profundo congelado.

3 “Trends in global CO2 emissions: 2014 Report” [Tendências nas emissões globais de CO2: Relatório de 2014], Netherlands Environmental Assessment Agency, Bilthoven-La Hague, 16 dez. 2014.

4 Richard Heede, “Tracing anthropogenic carbon dioxide and methane emissions to fossil fuel and cement producers, 1854-2010” [Rastreando as emissões antropogênicas de dióxido de carbono e metano por parte de produtores de combustível fóssil e cimento, 1854-2010], Climatic Change, v.122, n.1, Berlim, jan. 2014; e CAIT Climate Data Explorer 2015, World Resources Institute, Washington, DC. Disponível em: .

5 “World Energy Outlook” [Perspectiva da Energia Mundial], Agência Internacional de Energia (AIE), Paris, 2014.

6 Ratificado por 190 países, prevê compromissos de redução dos gases do efeito estufa para 38 nações industrializadas.

7 .

8 Item 37 da diretiva europeia de negociação, 13 jun. 2013, tornado público em 9 de outubro de 2014.

9 Cf. a contribuição de Philippe Bihouix em Économie de l’Après-Croissance [Economia do pós-crescimento], Les Presses de Sciences Po, Paris, 2015.
Le Monde Diplomatique Brasil

sábado, 26 de dezembro de 2015

“Brasileiro cultua a aparência”


Ivo Pitanguy / Foto: Carlos Juliano Barros

CARLOS JULIANO BARROS

Poucas pessoas têm tantas histórias para contar quanto Ivo Pitanguy. A primeira digna de nota está relacionada com o seu nascimento. Oficialmente, Pitanguy veio ao mundo em 5 de julho de 1926, em Belo Horizonte, mas a certidão oficial feita por seu pai em cartório registra o ano de 1923. Confusões à parte, o médico cuja trajetória profissional se confunde com o advento da cirurgia plástica no Brasil prefere mesmo dizer que já está caminhando para o aniversário de número 92 talvez para enfatizar a vitalidade que esbanja.
Pelas hábeis mãos de Pitanguy, considerado um dos papas da cirurgia plástica mundial, passaram celebridades nacionais e internacionais, como a atriz italiana Sophia Loren e o piloto austríaco Niki Lauda. Todavia, a lista de pacientes e amigos ilustres é um assunto que não parece deslumbrar o pacato e observador médico mineiro radicado há muito tempo no Rio de Janeiro, onde criou os primeiros cursos de especialização em cirurgia plástica do país. “É uma satisfação enorme poder transmitir o bom conhecimento”, afirma. Pitanguy também foi o responsável por levar serviços de atendimento médico em hospitais públicos para aqueles que não podem pagar por uma cirurgia plástica.
Nesta entrevista, concedida em sua luxuosa clínica sediada no bairro de Botafogo, na capital carioca, Pitanguy também se deixou levar pela filosofia para explicar sua impressionante longevidade e a invejável capacidade de conciliar o elevado número de compromissos que recheiam sua agenda: “o tempo não se mede pelo espaço de horas, mas pela intensidade que se dá a elas”, define.

Problemas Brasileiros – Em 2014, pela primeira vez na história, o Brasil superou os Estados Unidos em número de cirurgias plásticas, tornando-se o campeão mundial nessa prática. Foram quase 1,5 milhão de operações, ou 13% do total global. O que explica esse fenômeno?
Ivo Pitanguy – Não existe uma explicação única. Em primeiro lugar, creio que a população brasileira é muito consciente de sua aparência. Ela se expõe muito ao sol, não se esconde em roupas, enfim, é muito consciente de seu corpo. Então, a cirurgia plástica foi aceita como mais uma possibilidade de as pessoas se sentirem bem com a própria imagem. Mas essa não é a razão principal. Na minha geração, ensinava-se muito pouco de cirurgia estética. Então, junto com alguns colegas, criamos no hospital da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro uma estrutura em que se ensinava cirurgia reparadora e estética, reafirmando a importância de levar em consideração os desejos das pessoas. Isso teve o mérito de trazer para as classes menos favorecidas também a cirurgia estética, além da cirurgia meramente reparadora. Nós formamos muitos médicos com essa capacitação. Outro dado importante é que surgiram outras escolas que passaram a trilhar o mesmo caminho da nossa. Então, há a vontade de se transmitir o conhecimento. Isso fez com que o Brasil, hoje, tenha cirurgiões plásticos espalhados por todo o seu território, um cenário que contrasta com o de outros países. Se você for a Aracaju [SE], a São José do Rio Preto [SP] ou a Juiz de Fora [MG] vai encontrar um cirurgião bem treinado. A cirurgia plástica no Brasil adquiriu qualidade e respeitabilidade.

PB – Qual é a diferença entre a cirurgia plástica estética e a plástica reparadora?
Pitanguy – Essa diferença não existe. A cirurgia plástica é uma só. Opera-se um indivíduo para elevar seu bem-estar e também para melhorar a relação com a sua imagem. Por exemplo: se alguém nasce com uma orelha para a frente, pode-se fazer uma cirurgia estética, por conta de uma deformidade congênita. Se, por acaso, nasce com lábio leporino, a cirurgia é puramente reparadora, mas depois passa a ser estética para torná-lo igual ao lábio normal. É necessário dar relevância à cirurgia plástica como um todo e isso se reflete no ensino. É importante entender a profundidade que existe em tratar um traumatismo esteticamente.

PB – Lipoaspiração, implante de silicone nas mamas e operação de elevação dos seios são os procedimentos mais comuns, segundo levantamento da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética. As mulheres ainda recorrem mais a cirurgias plásticas do que os homens?
Pitanguy – É preciso falar de cirurgia plástica de uma maneira mais ampla, e não nesse ou naquele tipo de cirurgia, porque, como já afirmei, cirurgia estética e cirurgia reparadora se confundem muito. Um dos procedimentos mais comuns entre as mulheres é a cirurgia abdominal para aquelas que têm muitos filhos, aglutinando aspectos funcional e estético ao mesmo tempo. A lipoaspiração, por exemplo, é feita aqui em condições iguais às de outros países e tem indicações limitadas. Ela é bem indicada para as lipodistrofias e gorduras localizadas. Mas não se emagrece ninguém com lipoaspiração.

PB – É possível traçar um perfil dos brasileiros que buscam uma cirurgia plástica? Esse perfil vem mudando ao longo do tempo?
Pitanguy – Existe hoje em dia uma certa mudança, sobretudo devido à facilidade da exposição da imagem. Isso fez com que a população se nivelasse quanto à procura de uma imagem ideal. O marketing exagerado fez surgir figuras ideais que não podem ser reproduzidas. Outro ponto: as pessoas começaram a ficar mais obesas, criando um campo muito grande para as cirurgias que tratam da obesidade. Cada vez mais existe a necessidade de que o cirurgião plástico seja bem formado para orientar quem deseja fazer algum tipo de procedimento. Nesse aspecto, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica é bastante atuante e se ocupa da qualidade e fiscalização dos cursos de formação de cirurgiões. Somos um dos poucos países em que existe hegemonia de uma entidade. Em outros lugares, há várias delas brigando.

PB – Como o senhor avalia as críticas de que existe uma obsessão por cirurgias plásticas no Brasil, alimentando a construção de um padrão estético preconceituoso que não corresponde ao da maioria dos brasileiros?
Pitanguy – A formação do cirurgião é que vai fazê-lo dizer ao paciente se ele precisa mesmo ser operado ou se deve buscar outro tipo de ajuda. O importante é que o profissional – antes de ser cirurgião – seja médico, para saber aconselhar o paciente. A cirurgia plástica não deve ser banalizada. Ela deve ser vista como um ramo da cirurgia geral e feita em indicações apropriadas.

PB – Recentemente, a conhecida modelo brasileira Andressa Urach sofreu uma grave infecção em decorrência da aplicação de hidrogel. Casos semelhantes já tiveram grande repercussão, como o da modelo Claudia Liz e do cantor Marcus Menna, que entraram em coma durante procedimentos de lipoaspiração. O que explica um caso como esse: falha do médico, falta de assepsia da clínica ou não confiabilidade do tratamento?
Pitanguy – Sem entrar nos detalhes de nenhum desses casos, uma das questões mais importantes no campo da cirurgia plástica é não utilizar produtos que não tenham uma longa comprovação clínica e laboratorial. Há produtos que não devem ser utilizados ou são utilizados erroneamente, muitas vezes até por pessoas que sequer têm formação em medicina. Além disso, alguns itens não deveriam ter sido liberados. Aliás, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária [Anvisa] já proibiu um tipo de hidrogel. É muito difícil injetar alguma substância que o organismo tolere. Então, é importante saber o que injetar. Nós vemos tanto aqui na clínica privada quanto na Santa Casa muitos casos de pessoas que vão à academia para injetar óleo mineral para ganhar músculos, uma barbaridade. É essencial que o paciente saiba que não pode aplicar qualquer coisa no seu corpo e que deve procurar se informar bem, com orientação de um médico competente.

PB – O senhor é a maior referência em cirurgia plástica no Brasil e uma das maiores do mundo. Além de criar técnicas inovadoras, também organizou os primeiros cursos dessa especialidade no país. Em que papel o senhor se sente mais à vontade: no de cirurgião ou no de professor?
Pitanguy – Na vida, quando se tem a oportunidade de transmitir o conhecimento, é o mais importante que se pode fazer. Lutei muito para aprender sobre cirurgia plástica porque, simplesmente, na minha época não se ensinava sobre ela. Então, comecei a fazer isso, e nosso curso vem há 53 anos formando médicos cirurgiões. Tempos atrás, fizemos uma foto da primeira turma formada junto com o grupo diplomado de número 50. É uma satisfação enorme poder transmitir o bom conhecimento. Ao mesmo tempo, professor é aquele que aprende, não só o que ensina. Aprende com o convívio. Esse convívio faz com que a curiosidade permaneça viva. É um conjunto da alegria de viver e de ensinar.

PB – Interessados de fora do Brasil procuram o senhor para aprender sobre cirurgia plástica?
Pitanguy – Como fui pioneiro em diversas técnicas, durante toda a minha vida, recebi gente do mundo inteiro. Mas também é muito importante ter por perto as pessoas simples, aprender que entre o mendigo e o rei não há diferença. Você aprende lidando com todo mundo.

PB – Muitas pessoas que sofrem acidentes necessitam de cirurgia plástica para recuperar a configuração original do corpo. Como o senhor, que trabalhou na Santa Casa e no hospital municipal Souza Aguiar, ambos no Rio de Janeiro, avalia as políticas públicas direcionadas a pessoas que não podem pagar por um cirurgião plástico particular?
Pitanguy – No aspecto técnico da cirurgia plástica, o Brasil até que está relativamente bem. Estamos mal é na orientação e na qualidade dos serviços públicos. Se pensarmos em serviços que dependem de verbas, como o tratamento de grandes queimaduras, aí é que não estamos bem mesmo. Não somos comparáveis a outros países, a outros grandes centros. São serviços que, além do conhecimento médico, necessitam de manutenção – e isso custa dinheiro. Os enfermeiros, os medicamentos, enfim, todo o tratamento de um grande traumatizado custa muito caro. Nesse sentido, somos inferiores ao que de melhor se faz no exterior devido à nossa situação social. Mas a qualidade da medicina e da cirurgia plástica praticadas aqui são excelentes.

PB – O senhor deixou de fazer cirurgias há quase dois anos. Sente falta?
Pitanguy – Até os 90 anos, eu ainda operava. Parei sentindo que havia cumprido meu tempo. Mas ainda tenho um imenso prazer em dar consultas a pacientes, grupo selecionado de pessoas que gostam de ter a minha orientação, só que agora em número mais reduzido do que no passado. Também conduzo cursos de formação, um de pós-graduação na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro [PUC-RJ], que tem mais de 50 anos, e outro no Instituto de Pós-Graduação Médica Carlos Chagas. Tudo isso criado no âmbito do Instituto Ivo Pitanguy, que engloba a Santa Casa e a parte do ensino. Também continuo atuando na área científica, junto com um grupo de pessoas associadas da maior qualidade.

PB – O trabalho do cirurgião tem um quê do ofício do artesão?
Pitanguy – Em todo trabalho manual existe muito do artesão. O artesão puro não é valorizado. Mas não há uma grande pintura sem o artesanato. Não há uma grande escultura sem o artesanato. Michelangelo, por exemplo, foi um grande artesão italiano. Na medicina, você tem que – quando possível – conceber o útil. Mas depois você entrega ao organismo, que vai ter reações próprias. É uma profissão de intenções, não de fins absolutos, porque se assim fosse seríamos deuses – e não somos! A medicina é uma arte aplicada. Nas classificações antigas, desde os tempos de Aristóteles, a medicina não é tida como uma ciência dogmática, mas especulativa. Você está procurando encontrar a solução. Você não tem a solução. O médico precisa ter a vontade de acertar e essa vontade é conduzida pela formação, pelo estudo, pela especialidade. A medicina não pode ser inventada e reinventada, ela tem que ser feita, estudada e sedimentada ao longo de muitos anos.

PB – O senhor foi amigo de escritores consagrados, como Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, seus conterrâneos de Minas Gerais. Também manteve contato com personalidades como o filósofo Jean-Paul Sartre, o pintor Salvador Dalí e o cineasta Roman Polanski. O senhor é um grande amante das artes?
Pitanguy – Sou um grande amante da vida. Amo primeiro a natureza. Sempre gostei muito de bicho. Quando era garotinho, gostava tanto de bicho quanto de gente. E, desde jovem, sempre fui esportista. Gosto muito da disciplina que o esporte dá – e que trago para a vida. E gosto muito do convívio humano. Gosto da vida em toda a sua amplitude. Mas, por conta da medicina e do trabalho, evidentemente, sobra pouco tempo. Só que o tempo não se mede pelo espaço de horas, mas pela intensidade que se dá a elas. Por exemplo: se eu ia dar uma conferência em Kuala Lumpur, aproveitava para conhecer um pouco da Malásia. Aprendi muito sobre a vida nessas conferências que fiz pelo mundo, sendo levado por motivos puramente profissionais. Devo muito às obrigações profissionais e soube tirar proveito delas. E, evidentemente, gosto muito da vida familiar, de minha mulher, de meus filhos, sinto que a família é um núcleo fundamental. Tive a sorte de nascer numa família unida: meu pai era médico e minha mãe era uma grande senhora, uma grande humanista. Compreendo a divergência entre as pessoas, entendo que os filhos não têm de ser iguais aos pais. Mas é importante que exista um amor comum.

PB – O senhor recentemente lançou um livro com suas memórias intitulado Viver Vale a Pena. Como é sua relação com a literatura?
Pitanguy – Gosto muito de ler, e escrevo um pouco. Escrevo, sobretudo, trabalhos científicos, e são mais de 900 artigos e 40 livros. Mas Viver Vale a Pena é uma obra sem pretensões, que conta um pouco disso sobre o que estamos conversando: a luta por um ideal e a luta para transmiti-lo.

PB – O senhor se arrisca a escrever poemas, narrativas ficcionais?
Pitanguy – Não. Sou um grande leitor de poesia e gosto muito de literatura. Leio muito a grande literatura mundial. Adoro todos os clássicos. Graças a Deus, formei uma cultura muito sólida, começando por Homero, Dante, Cervantes, Shakespeare. Tenho toda a minha formação feita por prazer, que continuo a cultivar, porque gosto de cultuar o espírito. 

PB – E a sua relação com a música?
Pitanguy – Ouço o tempo todo música clássica. Gosto muito de Mozart, de Bach, mas quando estou calmo também gosto de bossa nova. Da nossa música, prefiro o samba romântico, mais antigo, mais clássico. Não gosto de música eletrônica e adoro jazz, Billie Holiday, por exemplo. Tudo o que faço, se possível, faço com música. A música é penetrante, conferindo a você uma consistência maior. 

PB – Chico Xavier foi caseiro de sua família. Madame Satã foi seu guia em mergulhos e caçadas submarinas. Em uma entrevista, o senhor afirmou que “sempre teve curiosidade pelas pessoas mais simples”. O que o senhor quis dizer com isso exatamente?
Pitanguy – Eu gosto muito de pessoas. E acho que a cultura popular é uma forma riquíssima de cultura. O Chico Xavier já é uma cultura do além... [risos]. 

PB – O senhor se interessa por política?
Pitanguy – Sim, tenho grande interesse pela política. Como todo mineiro, sou alguém que observa muito. Porém, jamais seria um político porque, devido ao meu temperamento, não sou de fazer grandes concessões para aquilo em que não acredito. Sou muito franco, muito aberto, e isso forma um mau político.

PB – Existe alguma figura política que o senhor admira? Em quem votou nas últimas eleições?
Pitanguy – A figura política que mais admirei e com quem convivi muito foi Juscelino Kubitschek. Tinha por ele uma grande admiração, pelo entusiasmo que conseguia transmitir às pessoas. Poucas pessoas têm uma luz interna e são capazes de transmiti-la a outras. Nas eleições do ano passado, Aécio Neves fez uma campanha bonita. Porém, acho que a política atualmente no Brasil está vivendo um momento de muita fraqueza. Na verdade, estamos muito pobres em política. E essa pobreza está refletida na expressão de desgosto de parcela da população pela política, esperando que alguma coisa nova surja.

PB – Além de se dedicar ao trabalho, o senhor sempre teve uma vida muito ativa: pratica mergulho e é faixa preta de caratê, por exemplo. Como equilibrar tantos pratos ao mesmo tempo?
Pitanguy – Se você tiver curiosidade por muitas coisas, vai se enriquecer mais. Eu tive essa sorte. E continuo tendo. Sei, por exemplo, o que aconteceu na última luta de MMA [Mixed Martial Arts]; estou a par da classificação do futebol; acompanho a NBA [a liga de basquete norte-americana], e estou inteirado sobre os tempos da natação. Se você der a cada momento uma intensidade maior, sua vida será muito mais rica em anos e os momentos mais longos.
Revista Problemas Brasileiros

Paixão pelos sons do Brasil



CECILIA PRADA

Personalidade marcante, reconhecida há muito tempo no meio intelectual e musical de São Paulo em sua tripla condição de cantora, professora e escritora, Léa Vinocur Freitag resolveu apresentar, em 2012, por conta própria, uma terceira edição, revista e ampliada, de seu livro Momentos de Música Brasileira, lançado em 1985 e reeditado em 1986 pela Editora Nobel. É obra que alcança um público numeroso e variado – de pesquisadores universitários especializados em música ou em cultura geral a apreciadores e interessados em aprender mais sobre os vários aspectos da música brasileira, desde os seus primórdios. Ou, como diz Cremilda de Araújo Medina, jornalista e professora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), Léa “fornece um trabalho ímpar na literatura musical de nosso país”, já que, por sua formação simultânea em música e em sociologia, “optou pela cosmovisão humanista e estendeu seu radar a um horizonte sem limites”.

De fato, à grande erudição de Léa Freitag e à seriedade de suas pesquisas somam-se os conhecimentos especializados da profissão, que também teve, de cantora, intérprete e divulgadora da música brasileira. Participante em concertos no Brasil e em vários pontos do exterior, ela é tida como artista sensível, dona de belíssima voz de soprano e capaz de acrescentar às suas apresentações palestras didáticas sobre especificidades da música brasileira de cunho nacionalista, da modinha e dos lundus do Brasil Colônia às formas mais contemporâneas. Sua paixão pelos temas que estuda parece inesgotável, e ela conta em seu currículo com mais de 300 artigos, críticas musicais e ensaios em revistas especializadas. É também membro titular da Academia Nacional de Música e recebeu várias comendas.

O livro atual contém a essência de duas teses defendidas por Léa Freitag na USP: a de doutoramento, “O Nacionalismo Musical no Brasil”, de 1972 – a primeira tese de sociologia da música elaborada no país –, e a de livre-docência, de 1977, “A Canção Brasileira Erudita e Semierudita como Expressão do Binômio Arte- -Sociedade”. É uma edição muito bem cuidada e revisada, que coincide com o lançamento do CD Modinhas Coloniais e Imperiais, com interpretações da autora.

No prefácio feito para a primeira edição da obra, o grande compositor e professor Camargo Guarnieri, dirigindo-se diretamente à autora, diz: “A partir de uma tese de doutoramento, que poderia restringir- -se aos parâmetros próprios da espécie, você, com sua fecunda curiosidade e desejo de melhor servir os leitores, aprofundou seus estudos e pesquisas sobre o importante tema da música brasileira. E o fez com a lucidez de um mestre”. E acrescenta que, baseando seus estudos nos melhores trabalhos de musicólogos, críticos, etnólogos, sociólogos, filósofos e historiadores, Léa prova que “a música brasileira existe como fato concreto, objetivo, que pode ser cientificamente comprovado pela experiência e registros de nossa história cultural”.

A primeira preocupação de Léa Freitag é a definição do nacionalismo à luz da sociologia e da história, estudado como fator preponderante na busca de uma linguagem própria para a música e para as outras manifestações artísticas da nacionalidade. Pois, como dizia Mário de Andrade – citado pela autora –, “uma arte nacional que não se faz com escolha discricionária e diletante de elementos de uma arte nacional já está feita na inconsciência do povo”.

A valorização da história da música legitimamente brasileira – demonstrada tanto pela autora como pelo maestro Camargo Guarnieri – evoca um debate bem antigo, que remonta aos primórdios de nosso modernismo, à Semana de Arte de 1922 e ao movimento antropofágico de Oswald de Andrade, com seus extremismos. Basta lembrar a indignação da pianista Guiomar Novaes, que, assustada com a ira iconoclasta dos “rapazes” promotores da Semana – da qual ela participara –, publicou um protesto nos jornais, anunciando sua ruptura com o movimento, pela intolerância demonstrada “em relação às demais escolas de música, das quais sou intérprete e admiradora”.

Completude

Fazendo convergir seu foco sobre essa questão, com pleno aproveitamento de sua formação acadêmica, Léa Freitag nos dá uma sensação geral de completude, de solidez de argumentação, de amplidão de informações que chegam a surpreender, considerando-se que a presente obra não contém senão pouco mais de 200 páginas. A despeito disso, como em um milagre, ela conseguiu condensar no volume suas duas teses e ainda apresentar biografias e críticas de vários artistas destacados, tanto no campo das canções como no da ópera e da música de câmara, bem como realçar a contribuição de eruditos professores. É o caso do maestro Furio Franceschini – figura de relevo na musicologia brasileira, principalmente por seu papel na formação de músicos – e de Ruy Coelho, que foi, para Léa, o grande professor de sociologia da arte da USP. Pela variedade temática dos artigos que a autora reuniu para completar seu livro – da ópera de Carlos Gomes a estudos de Verdi, de perfis de intérpretes a uma entrevista com Franco Zeffirelli quando de sua passagem pelo Rio de Janeiro em 1979 –, podemos ter uma ideia da extensão e da qualidade do material jornalístico que elaborou nos muitos anos em que fez crítica de música para os jornais “O Estado de S. Paulo” e “Jornal da Tarde”.

O CD Modinhas Coloniais e Imperiais, que ela define como “obra de juventude, com toda a espontaneidade e a esperança dessa fase da vida”, é um trabalho de paixão, que constitui reedição, com tecnologia atualizada, de um antigo LP seu, gravado em concerto de 1966. Nele, Léa é acompanhada ao piano por Maria do Carmo de Arruda Botelho, que se tornara famosa já na década de 1930 como pianista da cantora Vera Janacopulos e seus alunos em turnês pelo Brasil e em Paris.

O gênero da modinha tem sido registrado e estudado por muitos musicólogos, donde o valor inclusive documental do CD gravado por Léa. Na parte do Brasil Colônia, estão reunidas composições, com versos de Tomás Antônio Gonzaga feitos para sua amada Marília, extraídas do livro A Modinha e o Lundu no Século 18, de Mozart de Araújo. Quanto ao relevo que teve a modinha de salão, basta lembrar o que diz dela Mário de Andrade, que via sua ampla aceitação na corte e em outros círculos sociais, desde a segunda metade do século 18, como um vagalhão que dominou a musicalidade burguesa do Brasil e de Portugal, “inundando tudo, compositores, festas e impressores, só vindo o maremoto morrer aos nossos pés republicanos com os últimos dias do Segundo Império”.

Em plena atividade como professora titular da ECA, Léa até hoje é tida como uma especialista em “exumar partituras”. É o que diz Régis Duprat, professor titular de história da música da USP: “Inquieta, ela pesquisa para tirar do esquecimento autores e obras. [...] Léa contribui para transformar o ensino da música e as atividades universitárias, iluminando, com seu exemplo, pensamentos, atos e obras, o caminho da autêntica vida universitária”.
Revista Problemas Brasileiros

O distúrbio chamado dislexia


CEZAR MARTINS

Silêncio é uma palavra com alguns mistérios para a pequena Ana Beatriz Regonha. Tímida, a caçula de três irmãos conhece o significado do substantivo e o emprega com perfeição em qualquer história que vá contar, mas escrevê-lo na lousa seguindo o ditado da professora de português é uma tarefa complicadíssima para essa garota de 11 anos que cursa a quinta série do ensino fundamental. Frequentemente, ela é vitimada pelos ardis do idioma e, com a caneta na mão, sentencia: “Cilessio”. O problema da estudante, cujo nível intelectual é igual ao de seus colegas, assim como a alfabetização (concluída no prazo habitual), está ligado à dislexia, um transtorno de origem neurobiológica que dificulta a decodificação das letras, dos fonemas e a fluência na leitura e na escrita. Assim como ela, de acordo com dados da Associação Internacional de Dislexia (IDA, na sigla em inglês), cerca de 10% da população mundial tem esse distúrbio e boa parte ainda desconhece a razão de tantas dificuldades para ler e compreender um texto.

Esse, no entanto, não é propriamente o caso de Ana Beatriz, assistida desde os 6 anos por uma das muitas associações que dão apoio a jovens e adultos disléxicos no Brasil. Todas as terças-feiras, pela manhã, acompanhada da mãe, a menina participa de sessões de terapia em que, ao lado de outras crianças da mesma idade, pratica leitura, participa de jogos educativos e é estimulada por uma educadora a treinar a escrita para, lentamente, ir descobrindo meios de evitar seus erros mais comuns. A dislexia e a pressão para que tenha o mesmo aproveitamento dos outros alunos já não a assustam tanto. Ela diz que gosta mais das aulas de história e matemática, mas ainda enfrenta a resistência de alguns educadores reticentes quanto à necessidade de adaptar seus métodos de ensino e avaliação. “No começo do ano, tive de ir à escola para conversar com uma das professoras a fim de colocá-la a par da situação. Ela achava que o aproveitamento de minha filha em sua matéria, que podia ser bem melhor, decorria de falta de dedicação”, relata a mãe de Ana Beatriz. “Hoje eu compreendo melhor suas dificuldades e sofro menos”, conclui.

Embora a dislexia esteja catalogada na Classificação Internacional de Doenças, publicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), os especialistas preferem chamá-la de distúrbio de aprendizagem. A perturbação é causada pela inabilidade do lado esquerdo do cérebro em reconhecer automaticamente letras e sílabas escritas, relacioná-las ao som produzido pela fala e transformar esse conjunto em um repertório de palavras que serão úteis em leituras futuras e na produção textual. “É um transtorno de base neurológica, uma disfunção específica da área da linguagem”, explica a psicopedagoga Tânia Freitas, diretora da Associação Brasileira de Dislexia (ABD). Segundo ela, o indivíduo geralmente tem ótimas noções de espacialidade e de proporcionalidade e se expressa bem verbalmente, mas talvez tenha um vocabulário reduzido. “É aquela pessoa que dá voltas e voltas para contar uma história, algumas vezes não entende piadas, confunde as letras quando escreve e lê sem fluência”, diz.

Evidências científicas indicam que o distúrbio tem origem genética, é hereditário e não há cura completa para ele nem remédios capazes de colocar um fim no problema. A única saída é o acompanhamento constante por fonoaudiólogos, psicólogos e neurologistas especializados, por um longo período, até que o aluno aprenda a driblar suas dificuldades. Além disso, é extremamente recomendável que professores e pais participem da alfabetização, oferecendo instrumentos visuais e auditivos mais eficientes para os disléxicos. “O mundo é letrado e toda criança normal entra na escola com vontade de aprender a ler e a escrever. Ninguém quer ficar para trás, ser alvo de gozações, e esse problema pode ter consequências graves no futuro”, observa Tânia. De acordo com a psicopedagoga, que é especialista no tratamento de adolescentes e adultos, dependendo da extensão do trauma a que são submetidos por causa do distúrbio, há casos de disléxicos que se tornam dependentes químicos.

Projeto de lei

Em alguns países, como a Inglaterra e os Estados Unidos, o assunto é debatido amplamente e há políticas públicas que pregam maior atenção aos alunos com esse tipo de dificuldade; no Brasil, todavia, a dislexia ainda costuma passar longe dos despachos das autoridades estaduais e municipais e também dos ministérios que deveriam se preocupar com o tema. Enquanto isso, organizações não governamentais, como a ABD e o Instituto ABCD – que presta o atendimento gratuito a Ana Beatriz e a outras crianças – tentam contribuir com o diagnóstico e a capacitação de professores para a identificação, nas salas de aula, de alunos com sintomas do distúrbio. “A ideia não é levar o educador a fazer o diagnóstico, mas torná-lo informado e esclarecido sobre a questão”, diz Mônica Andrade Weinstein, diretora presidente do Instituto ABCD.

O fato de existirem outras entidades assistenciais em Brasília, Curitiba, Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul mostra que, a despeito da distância oficial, o tema faz parte das preocupações da sociedade civil, exigindo, portanto, maior atenção do Estado. Segundo Mônica, o problema diz respeito às secretarias de saúde, da educação e do desenvolvimento social. “A articulação de programas que envolvam essas três áreas é uma das maiores dificuldades que enfrentamos, devido a questões burocráticas e políticas, quando procuramos tratar do assunto com os governos municipais. Contudo, quando a integração ocorre, o resultado é muito satisfatório”, explica.

Um projeto de lei de 2010, ainda em discussão na Câmara dos Deputados, defende a criação, pelo poder público, de programas de diagnóstico e tratamento da dislexia para estudantes da educação básica, por meio de equipes de profissionais das áreas médica, educacional e psicopedagógica – além de tornar obrigatório que as escolas assegurem aos alunos recursos didáticos mais adequados a sua aprendizagem. A proposta, contudo, encontra resistência em diversas instituições e no próprio governo federal, tendo gerado uma polêmica em torno até mesmo das evidências da existência da disfunção. Relatório da deputada federal Mara Gabrilli (PSDB), na Comissão de Educação e Cultura, favorável à aprovação da lei, cita o Conselho Federal de Psicologia (CFP) como um dos líderes do movimento que “nega a própria dislexia”. Segundo Marilene Proença, representante do CFP, a questão a ser observada é a baixa qualidade do sistema educacional brasileiro. “A escola não atingiu níveis minimamente apropriados no Brasil. A preocupação do Conselho Federal de Psicologia é que as dificuldades de alfabetização são resultado de falhas na formação dos professores, de grades curriculares mal preparadas e de outros problemas. Estamos atribuindo às crianças a culpa por não saberem ler e escrever, mas oferecemos uma escola muito abaixo do que elas precisam”, avalia.

Outro receio se relaciona ao uso abusivo de medicamentos, devido ao que os estudiosos chamam de comorbidades da dislexia. Geralmente, um disléxico costuma apresentar, ao mesmo tempo, outros tipos de distúrbios. Um dos mais comuns é o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade, conhecido pela sigla TDAH. Seus sintomas são a incapacidade de concentração por um longo período em determinada atividade, inquietude e impulsividade e, embora seja reconhecido pela OMS, há também estudiosos que tratam o assunto apenas como mito. De qualquer maneira, quando o TDAH é diagnosticado, uma das soluções é a prescrição de um estimulante do sistema nervoso central de largo consumo. O Brasil é o segundo país que mais utiliza a droga, que é de uso controlado, segundo pesquisa da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, e a administração a crianças, na opinião de Marilene, deveria ser evitada por causa dos efeitos colaterais. “O aluno que costuma correr pela sala toma essa pílula e fica quieto. Mas o custo disso é altíssimo. Ela inibe, por exemplo, o apetite de crianças em fase de crescimento”, relata. Já os defensores do projeto de lei alegam que, como a medicação só pode ser indicada por neurologistas, sua utilização ainda estaria sob parâmetros seguros.

Para tentar sensibilizar os governantes e outros setores da sociedade para a importância do tratamento da dislexia, o Instituto ABCD lançou, em outubro de 2012, uma campanha batizada de “Eu Posso!”, cuja divulgação ganhou o apoio de diversos artistas que aceitaram tirar fotos com a camiseta criada pela entidade. É muito pouco para resolver a questão de vez, mas a fama do cantor e ex-ministro Gilberto Gil, da ex-jogadora de basquete Hortência e de outras celebridades contribuiu para colocar o tema em destaque nos principais veículos de comunicação, mesmo que por alguns dias. “Em outros países, o estigma da dislexia já foi vencido. No Brasil, infelizmente, o portador do distúrbio ainda tem receio de falar sobre ele em público”, lastima Mônica Weinstein.

Diagnóstico

Originada do grego, é bem possível que a palavra “dislexia” tenha sido utilizada pela primeira vez por um oftalmologista alemão, Rudolf Berlin, no final do século 19, quando estudava o caso de um jovem que tinha visão e nível intelectual normais, mas apresentava dificuldades de leitura e escrita. Já naquela época acreditava-se que a falha decorria de causas biológicas e era influenciada por fatores hereditários, mas pouco se sabia sobre as funções cerebrais responsáveis pela decodificação dos sinais escritos, conhecimento que se tornou maior e mais difundido apenas nas últimas décadas. Atualmente, imagens captadas por aparelhos de ressonância magnética indicam que as áreas ativadas no cérebro de um disléxico, quando colocado diante de um texto, são diferentes das de um indivíduo que não apresenta o transtorno.

Apesar de todos os avanços científicos e tecnológicos, o diagnóstico da dislexia não é simples e seu custo pode ser muito elevado para as famílias, em especial as de baixa renda. Ele é realizado clinicamente por uma equipe de profissionais de diferentes especialidades – psicopedagogos, fonoaudiólogos e neuropsicólogos – e pelo método de exclusão. Isso significa que uma criança com sintomas do distúrbio necessita passar por uma série de exames físicos para descartar qualquer outro tipo de moléstia capaz de afetar a alfabetização, além de ter seu histórico escolar e familiar esmiuçado para comprovar que tem recebido todos os estímulos fundamentais para o bom desempenho em sala de aula. Outra ressalva importante que os especialistas fazem é que nenhum aluno deve ser diagnosticado como disléxico até que tenha atingido a plena maturidade cerebral e emocional para ser alfabetizado, o que só costuma acontecer a partir dos 10 anos. Antes disso, é comum a ocorrência de trocas de letras e erros ortográficos. Mesmo assim, os professores devem estar atentos aos casos de aparecimento inesperado de dificuldades na aprendizagem – nessas situações as crianças são classificadas como “de risco” e já podem começar a receber acompanhamento adequado para evitar dores de cabeça futuras.

Na prática, medidas simples capazes de estimular o aprendizado por caminhos menos tradicionais, educadores mais bem informados e escolas que atuam com profissionais especializados mostram que a evolução escolar de alunos disléxicos pode ser tão satisfatória quanto a do restante da sala. “Trabalho, anualmente, com 600 alunos e é normal que de seis a oito deles sejam diagnosticados como disléxicos”, conta Fernanda Rissi, coordenadora de ensino fundamental do Colégio Dominante, escola particular de São Paulo. Ela diz que essas crianças passam por um sistema de avaliação diferente, ficam mais perto, na sala de aula, dos professores – que já estão mais conscientes sobre o problema – e têm a garantia de que as orientações dadas pelas psicopedagogas que fazem o acompanhamento serão consideradas.

“É importante trabalhar a confiança da criança com dislexia”, ressalta Fernanda. “Um de nossos primeiros alunos portadores do distúrbio terminou a faculdade de física, na Universidade de São Paulo (USP), e o pai nos mandou um e-mail para agradecer o apoio dado ao filho”, relata. O exemplo bem-sucedido, contudo, ainda é exceção entre os alunos brasileiros. O mais comum, segundo alerta Tânia Freitas, da ABD, é as crianças excluídas do processo educacional se tornarem jovens desinteressados pelas aulas, com baixa autoestima, podendo até mesmo, em casos extremos, abandonar os estudos. Na fase adulta, se tiverem a chance de descobrir as razões de suas dificuldades, sua trajetória pessoal e profissional já estará marcada por fracassos inexplicáveis e crises familiares severas, e terão um árduo caminho a percorrer na tentativa de reescrever, agora de forma certa, sua história.

Inventores e artistas

A despeito das dificuldades cotidianas para entender fonemas e ler fluentemente, os disléxicos possuem o hemisfério direito do cérebro bastante desenvolvido e costumam se adaptar bem a tarefas que envolvam criatividade. Talvez por isso exista uma lista extensa de atores, esportistas, músicos, pintores e gênios da ciência portadores do transtorno que, após superar as agruras da infância e da adolescência, conseguiram ser reconhecidos por suas virtudes na vida adulta. A lista é extensa, podendo ser citados Thomas Edison, inventor da lâmpada, Walt Disney, criador dos desenhos animados, e, na atualidade, estrelas de Hollywood, como Tom Cruise e Whoopi Goldberg, que costumam decorar os roteiros de filmes com a ajuda de gravadores.

Cruise acredita ter sido curado após aderir à cientologia (seita que mistura a psicoterapia com ensinamentos do hinduísmo, budismo e cristianismo), mas Whoopi, que ganhou um Oscar por sua atuação no filme Ghost e não se furta a abordar o transtorno com a imprensa, admite que teve problemas para esquecer as críticas de professores e colegas que não compreendiam seu baixo rendimento escolar. “Para um jovem, o efeito das palavras ‘estúpido’ e ‘burro’ é devastador”, diz.

Nascido na Alemanha e naturalizado suíço, o cientista Albert Einstein, ganhador do Prêmio Nobel em 1921 e considerado o maior responsável pela revolução nos conceitos modernos da física, começou a falar tardiamente e só teria sido alfabetizado aos 9 anos de idade, mas não há a certeza de que realmente sofresse do distúrbio. Sobre a escritora inglesa Agatha Christie, que morreu em 1976 e se destacou como autora de livros do gênero policial, paira a mesma dúvida. O fato de boa parte de suas histórias ter sido ditada a sua secretária faz os especialistas suporem que a “Rainha do Crime” tenha sido portadora do transtorno.

Já o escocês Jackie Stewart, tricampeão mundial de Fórmula 1, tomou ciência de que era disléxico quando um de seus filhos foi diagnosticado com a doença. Ele conta, em suas memórias, que ficava envergonhado quando a professora o convocava para fazer leitura em voz alta. “Olhava para a página e não enxergava nada além de uma massa de letras indecifráveis. Todos me tinham como um garoto pequeno e atrevido, com um brilho nos olhos, mas, naqueles momentos, minha fina camada de confiança era simplesmente arrancada.” Motivo de chacota na escola, o ex-corredor chegou a ser agredido por outros alunos quando tinha 14 anos. Adulto, interessou-se pela mecânica de automóveis, algo em que já se destacava e que o levaria para as pistas de corrida. Outro piloto disléxico, mas ainda em atividade, o inglês Justin Wilson tornou-se embaixador da Associação Internacional de Dislexia, com sede nos Estados Unidos.
Revista Problemas Brasileiros